Príncipe da Pérsia é um marco divisor na história do cinema pop. Longe de ser um grande clássico ou um cult incompreendido, a produção tem o mérito de ser o primeiro bom filme baseado num videogame, ainda que com sua cota respeitável de falhas.
Jake Gyllenhaal, com um físico bastante diferente do franzino Donnie Darko que o lançou, vive o príncipe Dastan, que nasceu plebeu, mas foi admitido na corte da Pérsia por sua coragem. Dastan tem dois outros irmãos, Tus (Richard Coyle), o primeiro na linha de sucessão, e Garsiv (Toby Kebell). A trama é uma das partes mais fracas e é o batido conto de um herói que precisa provar sua inocência diante de provas esmagadoras. No caso, Dastan é acusado de matar o rei Sharaman, precisa fugir dos irmãos e descobrir a identidade do verdadeiro assassino.
O elenco conta também com Gemma Arterton vivendo a princesa Tamina, numa performance que quase fica irritante, mas estaciona confortavelmente no “charmosa”. Ben Kingsley vive o enigmático irmão de Sharaman, Nizam, num papel óbvio e sem muitas camadas. Outro que faz uma ponta é o Doutor Octopus em pessoa, Alfred Molina, que age como alívio cômico no papel de um sheik trambiqueiro e ganancioso.
O maior mérito de Príncipe da Pérsia: As areias do tempo é capturar admiravelmente o espírito do game e traduzir a experiência interativa para a tela. Numa cena, quando o príncipe está invadindo o reino de Alamut, seu fiel amigo Bis passa os objetivos da missão. A câmera, tal qual faria em um game, viaja pelos alvos do príncipe (ou o jogador, caso o joystick esteja na mão), que precisa descobrir uma forma de cumpri-los. Esta mecânica, descobrir uma forma de chegar do ponto A ao ponto B com acrobacias, define a jogabilidade dos recentes jogos da franquia Prince of Persia, como Sands of time, Warrior within e The two thrones. O filme, aliás, parece pegar deixas no design de todos estes games, mas toma a correta decisão de não seguir fielmente nenhum deles. A história é coerente com o mundo do príncipe, mas não segue nenhuma de suas aventuras anteriores. Provavelmente a atenção à questão da atmosfera foi garantida pela presença de Jordan Mechner, o pioneiro designer da franquia, na produção do longa.
O príncipe de Gyllenhaal tem alguns problemas. O ator exala carisma e tem a aparência certa para o papel (ainda que a Pérsia do filme seja estranhamente caucasiana), com um sorriso nobre e humilde na mesma medida. Os problemas surgem quando Gylenhaal dispara um estranho — a princípio — sotaque britânico forçado e, mais grave, nas próprias falas. Está estabelecido no mundo dos games que o príncipe é sarcástico, com respostas tão afiadas quanto suas cimitarras, mas a escrita do filme precisa ser amolada. O esqueleto de boas frases de efeito está ali, mas raramente o príncipe dispara algo fora do comum ou genuinamente engraçado.
As cenas de ação são bem coreografadas, com muita ênfase em acrobacias. A edição é ligeiramente esquizofrênica e a câmera um pouco tremida, mas os personagens costumam ser distintos o bastante para que o espectador saiba quem é quem. No geral, os efeitos especiais não comprometem e só chegam a um nível constrangedor quando surgem as cobras controladas pelos Hassanssin, feitas em CG datado. Todo o mecanismo das Areias do tempo é interessante, ainda que pouco explorado, e se inspira apropriadamente em Prince of persia: The two thrones.
O primeiro passo está dado. Uma empresa gigantesca como a Disney colocou uma franquia de peso dos games como Prince of Persia sob suas asas e disparou um dos mais sólidos blockbusters da temporada. Os filmes baseados em quadrinhos já estão amadurecidos. Quem vai dar o próximo passo?



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