sábado, 17 de julho de 2010

Toy story 3 | Lee Unkrich


Depois de mais de uma década de saudades, Woody, Buzz Lightyear e trupe, aqui acrescida de dezenas de novos personagens, fazem um retorno tridimensional emocionante. Toy story 3 não causa exatamente a mesma excitação que colocou a Pixar no mapa, lá em 1995, mas onde falta inovação, sobra uma boa história, recheada da nostalgia, leveza e simplicidade características da franquia.



Nesta continuação Andy tem 17 anos e se prepara para ir à faculdade — fato que tormenta as cabecinhas de plástico dos brinquedos. Tudo o que eles querem é entreter a imaginação de uma criança amável, mas um sótão sombrio e úmido — uma opção triste, mas palatável — é seu destino mais provável. Por engano, contudo, a mãe de Andy leva o saco preto recheado com nossos heróis de borracha para a creche Sunnyside (pelo menos não foi o lixo!). Chegando no ensolarado local, eles conhecem uma dezena de novos brinquedos e o ser estofado cuja voz fala mais alto por ali. O urso Lotso, aromatizado de, argh, morangos silvestres, explica que agora eles serão genuinamente felizes, servindo eternamente de brinquedos para crianças ávidas por diversão.



É por aí que o questionamento existencial começa a fervilhar os miolos siliconados de Woody, Buzz, Rex, sr. e sra. Cabeça de Batata, Porquinho e tantos outros. Eles não são mais os brinquedos de Andy. Sempre souberam, em suas juntas sintéticas, que em algum momento isso aconteceria, e então devem lutar por dignidade e sobrevivência. E é na creche, onde crianças sempre vêm e vão sem nunca envelhecer, que os bonecos de plástico podem encontrar algum carinho. Mas não é exatamente isso que Lotso, com um passado de perda traumático, tem a lhes oferecer, alocando a trupe na sala para pré-escolares — sinônimo de mordidas, babadas, membros perdidos e todo o tipo de tortura inocente.



Numa reviravolta, porém — sra. Cabeça de Batata esqueceu um olho em casa e consegue ver o que se passa por lá... — os brinquedos descobrem que Andy os procura avidamente em casa e decidem escapar da prisão comandada por Lotso e seus comparsas. Toy story 3 vira um filme de fuga de prisão, com todas as referências possíveis ao gênero. O 3D não faz nenhum peça pular no seu colo ou causa incômodo algum. Mas, como na maioria das vezes dos que aderiram à febre do verão americano, é completamente dispensável.



Toy story 3, porém, não é. O motivo que sustenta a animação, além dos milhares de dólares que certamente retornarão aos estúdios, é a forte ligação emotiva dos personagens, tão bem trabalhados. Trata-se aqui da história de um ciclo de vida, que tocou crianças e adultos em 1995, e sobrevive em sua segunda continuação, um tanto mais sombrio, por ser um fecho depois de tantos anos. O entretenimento, a leveza da distração, alcança os 90 minutos do longa, e não se propõe a enveredar em clichês heróicos ou tensões em ápices, comuns aos blockbusters. As risadas continuam lá e vêm naturalmente, seja de um Ken canastrão ou das peripécias de um Buzz mal configurado.



Entre conquistar nova audiência e não decepcionar os antigos fãs, hoje crescidos, Toy story 3 apela aos dois lados, sem desequilíbrio. Tanto os mais novos como os mais velhos tiveram seus brinquedos preferidos e já encararam algum tipo de perda ou escolha difícil. A mensagem fica bastante óbvia no final, o que poderia ser um tanto menos explícito, mas causa emoções genuínas por um monte de plástico. Sobretudo se o amontoado evocar o que descartamos em nossas vidas, com tanta facilidade, ou o que escolhemos deixar para trás, a contragosto. Isso faz parte do ciclo, inevitável como o dia e a noite, complementares, como o estúdio apresenta no espetacular curta Dia & noite, exibido praticamente como prólogo do que vem a seguir.

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