Almas à venda é o novo filme de Charlie Kaufman — o roteirista it que ficou famoso por escrever historias kafkianas em que o amor, o absurdo e o surreal se misturam — em todos os sentidos exceto um: este não é um filme seu. É curioso ver como o homem responsável pelas histórias de Adaptação, Brilho eterno de uma mente sem lembranças e Quero ser John Malkovich conseguiu fundar uma verdadeira escola de roteiro moderno — ou modernoso — para o cinema tornando-se ídolo imediato de 11 entre 10 jovens aspirantes a roteiristas.
Almas à venda na verdade é escrito e dirigido pela estreante Sophie Barthes, que, para um primeiro longa-metragem, faz um belo trabalho. A estrela é Paul Giamatti — o eterno coadjuvante de filmes como O resgate do soldado Ryan e O ilusionista e herói indie de filmes como Sideways e Um herói americano — interpretando ele mesmo. Ou melhor, uma versão dele mesmo como um ator atormentado pela montagem teatral de Tio Vânia, de Anton Tchekhov. Trata-se de um homem de meia idade em crise (papel em que Giamatti parece ter se especializado) que aproveita sua obscuridade, mas almeja uma realização profissional — para, logo em seguida, experimentar um alívio pessoal, pois, a seu ver, é algo impossível de ser alcançado.
Sophie usa aqui um jogo de autorreferência mista de realidade e ficção que faz ecoar Quero ser John Malkovich. Giamatti vê num anúncio de revista a possibilidade de exterminar suas inquietações: uma clínica que promete aliviar o sofrimento ao extrair, congelar e guardar a alma das pessoas. Ao perceber que sua alma foi extraviada para a Rússia — detalhe para a boa escolha dos cenários russos —, Giamatti embrenha-se no mercado negro de almas: compra, venda e tráfico internacional.
Embora Almas à venda seja um bom filme, curiosamente sofre da mesma mazela dos feitos de Kaufman. Após a curiosidade inicial com a premissa se esvaecer, o filme não consegue se sustentar com o mesmo vigor. Mesmo tendo uma ideia original, o que faz o longa se garantir é a força de seu elenco — que conta ainda com Emily Watson e com David Straithairn, indicado ao Oscar por Boa noite e boa sorte. Embora em Almas à venda o tom seja um tanto mais soturno e menos bem humorado — destaque para as cenas de humor negro envolvendo Giamatti e o doutor responsável pela clínica de extração de almas, vivido por Straithairn — que nas produções de Kaufman, o filme consegue alcançar momentos de um lirismo mais profundo e tocante. Fora isso, Almas à venda é uma boa opção para aprender como se escreve um filme contemporâneo alternativo.



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